O que os juros nos dizem sobre o futuro?

No post anterior abordamos de forma mais ampla a importância dos juros para a economia. E uma das questões que sempre surgem em relação a eles é sobre o porque da diferença entre a taxa Selic e as taxas cobradas nos empréstimos e financiamentos
Segundo dados do Banco Central referentes a abril de 2020, a taxa média para empréstimos com recursos livres (juros de mercado) para pessoas físicas estavam em 44,51% ao ano (a.a.); e mesmo para pessoas jurídicas estas taxas fecharam em 15,75% a.a..
A meta Selic está atualmente em 3,00% ao ano e, é bem provável que finalize 2020 entre 2,00 e 2,25%. A explicação de uma parte desta diferença serve para compreender, mesmo que indiretamente as demais, como o mercado de juros futuros.

O mercado de juros futuros

Para começar, é válido um exemplo. Imagine que você precise de R$ 1.000,00 emprestados para pagar daqui dois anos em um a parcela única. Para emprestá-lo sem qualquer outro custo adicional a não ser o de captação, e acreditando que a taxa Selic atual será a mesma até lá, uma instituição financeira irá cobrar 4,55% (dois anos de taxa a 2,25% a.a.) + custo de captação. Se o custo de captação for igual a zero, você terá que pagar exatos R$ 1.045,51.
Se o custo de captação for igual a zero, você terá que pagar exatos R$ 1.045,51. Ou seja, devolver os R$ 1.000,00 pagando R$ 45,51 de juros. No entanto, é pouco provável que alguma instituição acredite que os juros permanecerão neste patamar por todo este período. E é exatamente desta “crença”, que em termos técnicos são conhecidas como expectativas, é que surgiu o principal mercado de juros no Brasil: o de Depósitos Interfinanceiros Futuros (ou apenas mercado de DI Futuro).
Para “zerar” o seu caixa diário, as instituições financeiras (principalmente os Bancos) fazem operações de empréstimos entre si ao longo do dia. E a taxa média de todas estas operações é conhecida como taxa dos depósitos interfinanceiros de um dia (o famoso CDI). Mas o que dizer quando essas operações têm vencimentos de, por exemplo, um mês, um ano, dois anos, cinco anos?
No exemplo anterior, a instituição financeira certamente fecharia o contrato de empréstimos com você cobrando a taxa de juros esperada para daqui dois anos; que hoje está perto de 2,45% a.a. (0,20 ponto percentual (p.p.) acima do patamar esperado para a Selic meta deste ano.
Neste cenário, os R$ 45,51 de juros se tornariam R$ 49,60. Se o mesmo empréstimo fosse para pagamento daqui a cinco anos a taxa de juros seria de aproximadamente 6,00% a.a., implicando em um pagamento de juros de R$ 338,23. No entanto, além do custo de captação existem diversos outros custos (inadimplência, despesas administrativas, tributos, etc) que compõem a taxa final; mas são temas para outros posts. 
E o que explica essas diferenças nos juros ao longo do tempo? De um modo geral, a diferença nasce das expectativas do mercado para a taxa básica de juros para aquele período. Ainda que o país esteja passando por aquela que tem grande chance de ser a pior recessão da sua história (o que ajuda a explicar a taxa Selic a 2,25%), é pouco provável que os juros permaneçam neste patamar durante os próximos 5 anos.
É natural, também, que à medida que a economia cresça ocorram maiores pressões sobre os preços; e como já é sabido, para o cumprimento da meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional o Banco Central, geralmente, utiliza-se da Selic Meta como o principal instrumento.
A lógica é exatamente a mesma em relação aos juros de médio e longo prazo, mas levando-se em consideração todas as incertezas relacionadas ao horizonte temporal mais longo. Pense, por exemplo, que em um prazo de 5 anos podem ocorrer: 2 eleições, trocas de governos, crises político-institucionais; e até mesmo algum processo de impeachment (a nível Estadual, Municipal ou Federal). O mercado de juros futuros portanto, nasce da expectativa de cada agente (comprador ou vendedor) acerca do patamar da taxa básica de juros em um futuro de curto, médio ou longo prazo.
Assim, quanto menores forem os valores esperados para os juros futuros, implicitamente os participantes deste mercado acreditam (em sua maioria) que a inflação, e demais condições econômicas (contas públicas controladas, ambiente político estável, crescimento econômico sustentável, etc) serão favoráveis para que os juros permaneçam baixos por um longo período. E neste mercado a recíproca é intensamente verdadeira. 
Tivemos diversos episódios na história econômica brasileira, desde o início dos anos 90, quando surgiu o mercado de juros futuros no país. De lá para cá tivemos os juros básicos da economia indo de 45% a.a. (em 1999, no início do sistema de metas de inflação) aos 2,25% atuais.
Esses juros em algum momento do passado eram os DIs futuros, mas dificilmente houve quem esperasse números tão extremos, ainda que cada um deles tenham suas lógicas econômicas bastante robustas. No Brasil, há mais coisas entre o DI de um dia (o CDI) e o DI janeiro 2025 do que “sonha nossa vã filosofia”. E essas coisas explicam bem o que é o nosso país. 

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